para ser sincera, não sei se serei capaz de dizer alguma coisa de jeito. Sinto a escrita a perder-se cada vez mais e eu não consigo segurá-la. queria, mas não consigo. só que hoje tenho de fazer um esforço. faz hoje precisamente 11 meses desde que partiste. 11 consegue ser um número tão grande se pensar em ti. 11 significa que o 12 está perto. significa que já quase um ano passou e que a dor volta à carga como se tivesse sabido a notícia hoje. às vezes pergunto-me onde arranjo força para ultrapassar isto, mas a verdade é que não ultrapasso. a dor está aqui tão presente, tão viva dentro de mim, e por mais que tente apagá-la, não consigo. como se isso significasse que estaria a tentar tirar-te de mim. e se eu quero que fiques para sempre, tenho de me sujeitar à dor que isso pode causar. à dor da tua ausência, que me põe tantas vezes com os olhos encharcados como que pedindo para voltares. porque se me dissessem para pedir algo que até agora era impossível, convertendo para possível, eu só pedia que voltasses. só isso. o resto do mundo podia ruir, desde que te tivesse comigo. hoje lembrei-me muitas vezes de ti. e como deves calcular estou a escrever-te isto com as lágrimas nos olhos, porque pensar em tudo isto dói, e mesmo que não me queira lembrar, acabo por o fazer automática e inconscientemente.
tenho imensas folhas em branco a seguir a esta, e podia gastá-las todas só a escrever para ti, mas de que me serviria? se cada palavra que utilizo te fizesse ter mais um minuto de vida, acredito que já tivesses voltado há muito tempo. no meio de tudo isto, custa ver uma fotografia tua. custa passar dias e dias com a ideia na cabeça de te ligar para saber como estás. se o coração está fraco ou se já baixaram o nível de morfina porque já não tens dores. queria voltar atrás no tempo e receber uma chamada a dizer que ias voltar para casa e não que morreste. quero voltar a ouvir a tua voz, a ver o teu sorriso, a ouvir a tua gargalhada. quero voltar a ver-te no topo da mesa da tua casa porque é lá que pertences. quero voltar a abraçar-te com toda a força do mundo e dizer-te com o olhar que és o melhor avô do mundo. porque és, porque sempre foste. se ao menos Deus fosse justo, ainda hoje estarias aqui comigo e, possivelmente, algo agora me iria fazer lembrar de ti e iria ligar-te só para ouvir a tua voz e saber se estavas bem.
volta, volta, volta. Amo-te tanto! estejas onde estiveres, por favor, nunca duvides disso. daria tudo por ti. Tudo. nunca desapareças, por favor. não há nada que mais tema do que me esquecer da tua voz e que a tua imagem se desvaneça da minha mente.