quando paro para pensar na minha vida é que me apercebo que ela está uma merda. que eu já sou como uma rua comum na baixa de Lisboa, onde mil pessoas passam todos os dias por lá e já nem ligam aos pormenores. como se a rua perdesse todo o seu encanto inicial, como se estivesse tão gasta que não merecesse ser fixada pelo olhar de alguém. já se tornou tudo tão banal que é isso que sou. acordo e digo que não estou bem, digo o que se passa, e assim se faz o dia. perdi o encanto, ou o próprio Mundo perdeu-o? vejo tudo a preto e branco porque alguém decidiu pegar em todas as cores e fugir com elas para um lugar bem longe daqui, completamente fora do meu alcance. e todas as pessoas que me rodeiam vivem normalmente, vão às suas vidas todas as manhãs e passam naquela rua de Lisboa tão gasta como as palavras - já dizia Eugénio de Andrade -, sem parar, sem se questionarem se alguma coisa mudou durante a noite. se alguém decidiu ir lá melhorar uma porta, limpar uma janela, ou fazer qualquer coisa de diferente. eu sou essa rua. sou um chão gasto, uma parede suja e uma porta partida. sou o normal e deixei de ter encanto. passei de cinco cores a uma única. a um cinzento bem carregado. toda eu sou cinzenta. e fazer com que me sinta útil? não sei que caminho escolher para lá chegar. não sei se há atalhos para ruas mais bonitas ou se tenho que enfrentar o negro em que me tornei até poder ver uma pequena luz ao fundo da rua. já não há túnel que me salve. não há ninguém para me salvar. e mesmo assim, continuo a ser aquela rua, com a esperança que um dia destes alguém pare, olhe para mim, e se aperceba que estou a pedir ajuda.